Em crise financeira, Correios colocam imóveis à venda e esperam arrecadar até R$ 1,5 bilhão

19/02/2026
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Em crise financeira, Correios colocam imóveis à venda e esperam arrecadar até R$ 1,5 bilhão

Em meio a uma das maiores crises financeiras de sua história, os Correios anunciaram nesta sexta-feira (6) que vão colocar imóveis próprios à venda em diferentes estados do país. A medida integra o plano de reestruturação da estatal, que prevê arrecadar até R$ 1,5 bilhão até dezembro de 2026 com a alienação de ativos considerados ociosos.


O desafio, no entanto, é significativo. Nos últimos seis anos, a empresa vendeu apenas R$ 45,7 milhões em imóveis classificados como disponíveis para revenda — valor que representa cerca de 3% da meta estipulada para este ano. As vendas registradas foram:


  • 2025: R$ 2,9 milhões (até setembro)
  • 2024: R$ 10,4 milhões
  • 2023: R$ 6,2 milhões
  • 2022: R$ 7,3 milhões
  • 2021: R$ 18,4 milhões
  • 2020: R$ 512 mil

Os primeiros leilões estão marcados para os dias 12 e 26 de fevereiro. Nesta fase inicial, serão ofertados 21 imóveis, em certames totalmente digitais, abertos à participação de pessoas físicas e jurídicas.


Segundo os Correios, os imóveis estão localizados em 12 estados: Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo.


O portfólio inclui prédios administrativos, galpões, terrenos, lojas e apartamentos funcionais, com valores iniciais que variam de R$ 19 mil a R$ 11 milhões. A estatal afirma que as vendas não devem afetar a prestação de serviços à população e que outros imóveis ainda estão em fase de preparação para futuras alienações.


As informações completas sobre os leilões — como editais, imagens dos lotes e regras de participação — estão disponíveis nos canais oficiais da empresa e da leiloeira responsável.


Crise financeira e plano de reestruturação

A venda de imóveis ocorre em um contexto de deterioração acelerada das finanças da estatal. Como parte do plano de recuperação, os Correios abriram, no início de 2026, prazo para adesão a um Programa de Demissão Voluntária (PDV).


A expectativa é reduzir em cerca de 15 mil funcionários de um quadro atual aproximado de 90 mil empregados. O programa inclui ainda reorganização de cargos e alterações em benefícios, como plano de saúde e previdência. A empresa informou que ainda não possui um balanço consolidado sobre as adesões.


Segundo a estatal, as medidas podem gerar uma economia anual de R$ 2 bilhões a partir de 2027.


Dados internos mostram que os gastos com pessoal cresceram de forma consistente nos últimos anos. Em 2022, as despesas somaram R$ 15,2 bilhões. Em 2024, esse valor subiu para quase R$ 20 bilhões. Atualmente, cerca de 60% da receita dos Correios é destinada ao pagamento de salários, plano de saúde e outros custos relacionados ao quadro funcional.


Ao mesmo tempo, a empresa perdeu espaço no mercado de encomendas. Há seis anos, os Correios detinham cerca de 50% desse segmento. Ao final de 2025, a participação caiu para aproximadamente 20%, segundo dados citados pela própria estatal.


O plano para 2026 inclui ainda o fechamento de agências. Até o momento, 121 unidades já foram encerradas, de um total de mil previstas no processo de reestruturação.


Os números do balanço reforçam o cenário crítico. Em 2022, a estatal registrou prejuízo superior a R$ 700 milhões. Em 2024, o déficit avançou para R$ 2,5 bilhões. O resultado de 2025 ainda não foi oficialmente fechado, mas a empresa estima um rombo de R$ 10 bilhões.


Para manter as operações, os Correios contrataram um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos, dos quais R$ 10 bilhões foram liberados no início de 2026, após garantias oferecidas pelo Tesouro Nacional. A estatal admite que pode precisar de mais R$ 8 bilhões ao longo do ano.


No fim de 2025, o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, afirmou que o prejuízo de 2026 pode chegar a R$ 23 bilhões caso o ciclo de perdas não seja interrompido.


Especialistas avaliam que a estatal enfrenta dificuldades estruturais para competir com empresas privadas. O economista Raul Velloso defendeu a redução do peso dos gastos:


“Nós temos de arrumar as coisas de tal forma que o setor público saia desses segmentos e nós adequemos o funcionamento deles a um índice de gasto bem mais razoável do que o que se tem em nosso país”.


Já Armando Castellar, pesquisador associado do FGV Ibre, afirmou que os Correios correm contra o tempo e deveriam considerar a privatização:


“Não tem agilidade de um setor que é cada vez mais competitivo, cada vez mais ágil. Empresas estatais no passado fecharam exatamente porque o governo hesitou muito. É muita hesitação em termos de você privatizar. Demorou, demorou, acabou tendo que fechar porque o prejuízo simplesmente era grande demais e não havia condição de competir”.

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